MATÉRIA NO JORNAL O GLOBO EM 29 DE JUNHO DE 2003

 

Música contra o apartheid Social brasileiro

Caetano grava o brega Fernando Mendes e diz:

"mexer na estrutura é projeto de vida"

 


     Por Hugo Sukman


 

Caetano Veloso abre a porta e toma um susto: ouve uma de suas canções mais íntimas, "Mãe" - que de tão íntima ele nem teve a certeza de que deveria gravar - cantada de forma sentida e respeitosa por Fernando Mendes, compositor de clássicos bregas como "Cadeira de rodas".

O motivo do encontro, testemunhado pelo GLOBO, era justamente o oposto: surpreender Fernando Mendes ao mostrar, em primeira mão, a gravação que Caetano fez de "Você não me ensinou a te esquecer", m dos maiores sucessos de Fernando do fim dos anos 70, redescoberto como tema de amor do filme" Lisbela e o prisioneiro", de Guel Arraes, que estréia em agosto.

 

Que boa gravação - conseguiu dizer Caetano de "Mãe", notando que Fernando Mendes seguia a harmonia original da sofisticada valsa que fez, numa noite de solidão no fim dos anos 70 em seu antigo apartamento no Leblon, e que seria gravada por Gal Costa no disco "Água via". - Escrevi "Mãe" para mim mesmo. Como digo em "Noite de hotel", o ato mero de compor uma canção foi naquela ocasião muito necessário. Estava preparado o momento emocional, Mendes ouviria a versão de Caetano de sua "Você não me ensinou a te esquecer", que chega às rádios amanhã, com toda pinta de ser um sucesso como "Sozinho", canção brega de Peninha, que puxou as vendas de Caetano para um milhão de cópias pela primeira vez.

   

- Fora do comum - embasbacou-se Mendes. Assim, Fernando Mendes, o brega, canta Caetano, o chique; e Caetano, o chique, agora canta Fernando Mendes, o brega. O encontro dos dois compositores, de igual para igual, parece traduzir o ideal estético do tropicalista Caetano, que tornou respeitável ao público culto artistas antes desprezados como Vicente Celestino, Odair José, Peninha, o funk "Um tapinha não dói" e até Roberto Carlos.  - Mais do que um projeto musical, é um projeto de vida quebrar, à minha maneira, a estrutura social e econômica do Brasil. Gravar esses compositores sempre foi para mim um forma de gritar contra o apartheid social brasileiro - afirma Caetano.

 

 

 

'Caetano quer complexificar critérios'

Fernando Mendes faz canção dizendo que seria bom ter prestígio da MPB

 

Fernando Mendes compôs e gravou " Você não me ensinou a te esquecer" em 1979, na época em que seguia os passos românticos do rei Roberto Carlos. É uma sofrida canção de amor, simples e direta como os muitos sucessos populares que o cabeludo e cacheado - até hoje fiel ao corte - compositor teve ao longo de três décadas de carreira. Uma canção que se convencionou chamar de brega.

 

- Brega é o nome que o invejoso dá ao vitorioso - replica Fernando Mendes, que diz não se incomodar com a definição. Caetano, para quem superar tal preconceito com a música popular sempre foi uma bandeira, quase uma razão de ser de sua carreira, incomoda-se, sim.

 

- É uma boa definição essa do Fernando - provoca Caetano. - Há no Brasil muitos preconceitos, por exemplo contra as canções de harmonia simples. O rock quando surge parece algo regressivo. Então não se percebe como ele trouxe sofisticação formal em termos de contraponto, de timbres, de força de atitude.

 

Espírito já estava nas antigas composições de Caetano

Para Caetano, o mesmo raciocínio em relação ao rock pode ser aplicado no que se chama de brega. Ou seja, há uma simplificação do pensamento sobre música no Brasil. - Muita gente me acusa de falta de critérios quando defendo esse ou aquele tipo de música, de defender o vale-tudo. Mas o que eu busco é complexificar os critérios críticos - afirma. - Era essa complexidade que eu buscava em todas as vezes que provoquei o bom gosto dominantes de Vicente Celestino ao "Tapinha".

 

Para Caetano, antes de expressar tal opinião gravando os rejeitados pelos bem-pensantes da MPB, ele a incorporou em sua própria obra. - é uma postura que já estava nas minhas composições em 1966, em "Baby", "Divino", "Maravilhoso", "Superbacana", e depois "Ta combinado", "A luz de Tieta" - afirma. - Não aceito, nem nunca aceitei, essa divisão que quem impor à música brasileira entre a canção popular e a música de boa qualidade da MPB.

 

Outro dia, na Praia de Ipanema, Caetano viveu uma cena que ilustra bem a profundidade do preconceito que nota na música brasileira: - Um garoto da Pavuna - lembro-me do bairro porque era um bairro musical... - que gostava de música, falou-me das conversas que tinha com os amigos, visivelmente fãs da boa MPB, que o influenciavam muito. Até que ele me disse: "Olha, gosto muito de suas canções, mas, me desculpe, algumas eu acho muito pobres, como "Baby" (risos).

 

A gravação de "Você não me ensinou a te esquecer", que sai no disco da trilha sonora de "Lisbela e o prisioneiro", pela gravadora Natasha, é sofisticada e moderna: cordas e batidas eletrônicas arranjadas pelo pernambucano André Moraes. -  É uma canção interessantes, sem refrão, numa estrutura pouco comum - diz Caetano.

 

Mesmo fora da mídia, Fernando Mendes não para de dar shows pelo Brasil. Acabou de grava um disco, a ser lançado em setembro, em que sem querer apresenta uma canção, "Seria demais", que de certa maneira adivinha sua situação atual:  "Se eu tivesse a beleza do Vinny, ou entção do Ronnie Von, seria bom; Se eu tivesse o prestígio de Chico/Caetano, Gil e gal/Que legal". Por um tempo, ele terá um pouco desse prestígio. E Caetano verá o apartheid derrubado, ainda que simbolicamente.

 

No Estados Unidos música POP é música POP e inclui tudo e todos. No Brasil aqueles que se consideram melhor do que os outros, classificam a música feita no Brasil em MPB quando o produto vem do Nordeste, ou se é samba ou bossa nova. Porém se a música é feita para o povo em geral os críticos em geral chama o estilo de brega. Uma atitude provinciana e ultrapassada, porque, um bom intelectual e crítico também deveria respeitar gostos, estilos e artistas em geral. No meu ponto de vista MPB é toda música feita no Brasil e escrita em língua portuguesa. Música popular é tudo escrito e cantado pelo povo na língua oficial do país de origem.

 

 

 

Não vejo mais você faz tanto tempo

Que vontade que eu sinto

De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços,

É verdade eu não minto,

E nesse desespero em que me vejo

Já cheguei a tal ponto

De me trocar diversas vezes por você

Só pra ver se te encontro

Você bem que podia perdoar

E só mais uma vez me aceitar

Prometo agora vou fazer por onde

Nunca mais perdê-la

 

Agora, que faço eu da vida sem você?

Você não me ensinou a te esquecer

Você só me ensinou a te querer

E te querendo eu vou tentando te encontrar

 

Vou me perdendo

Buscando em outros braços seus abraços

Perdido no vazio de outros passos

Do abismo em que você se retirou e me atirou

E me deixou aqui sozinho

 

            Você não me ensinou a te esquecer,

                      de Fernando Mendes

 

 

Os 'bregas' de Caetano

VICENTE CELESTINO: Em "Tropicália ou Panis et circensers", disco - manifesto do tropicalismo, Caetano pega o que até então era considerado o supra-sumo da cafonice nacional, o operístico e folhetinesco Vicente Celestino, e grava "Coração materno", a triste história de um camponês, sua mulher e sua mãe.

ROBERTO CARLOS: Quando o rei era apenas um cantor de iê-iê-iê, Maria Bethânia deu o toque a Caetano: Roberto era mais interessante que a maior parte da MPB que tirava onda por ali. Caetano acreditou e passou a vida a defender, gravar e fazer canções para Roberto Carlos. Em "Muito romântico" define: "Tudo que eu quero é um acorde perfeito, maior/Com todo mundo podendo brilhar, num cântico".

ODAIR JOSÉ: Em 1973, num show no Maracânazinho, Caetano arranca apupos da platéia ao dividir o palco com Odair José e seu hit brega-político "Pare de tomar a pílula".

PENINHA: Ao gravar "Sonhos", no início dos anos 80, revelou as canções românticas de Peninha ao público culto. Ao gravar "Sozinho" no disco "Prendas minha", a canção popular de Peninha puxou suas vendas para o patamar inédito de um milhão de cópias.

TAPINHA: Novas vaias no palco ao se ouvir Caetano cantar o hit sadomasoquista do funk carioca "tapinha", cujo refrão é acoplado à chique "Dom de iludir", gravada em "Noites do norte ao vivo".