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Que boa
gravação - conseguiu dizer Caetano de "Mãe", notando que
Fernando Mendes seguia a harmonia original da sofisticada
valsa que fez, numa noite de solidão no fim dos anos 70 em
seu antigo apartamento no Leblon, e que seria gravada por
Gal Costa no disco "Água via". - Escrevi "Mãe" para mim
mesmo. Como digo em "Noite de hotel", o ato mero de compor
uma canção foi naquela ocasião muito necessário. Estava
preparado o momento emocional, Mendes ouviria a versão de
Caetano de sua "Você não me ensinou a te esquecer", que
chega às rádios amanhã, com toda pinta de ser um sucesso
como "Sozinho", canção brega de Peninha, que puxou as vendas
de Caetano para um milhão de cópias pela primeira vez. |
- Fora do comum - embasbacou-se Mendes. Assim,
Fernando Mendes, o brega, canta Caetano, o chique; e Caetano, o
chique, agora canta Fernando Mendes, o brega. O encontro dos dois
compositores, de igual para igual, parece traduzir o ideal estético
do tropicalista Caetano, que tornou respeitável ao público culto
artistas antes desprezados como Vicente Celestino, Odair José,
Peninha, o funk "Um tapinha não dói" e até Roberto Carlos. -
Mais do que um projeto musical, é um projeto de vida quebrar, à
minha maneira, a estrutura social e econômica do Brasil. Gravar
esses compositores sempre foi para mim um forma de gritar contra o
apartheid social brasileiro - afirma Caetano.
'Caetano quer complexificar critérios'
Fernando Mendes faz canção dizendo que seria bom ter
prestígio da MPB
Fernando Mendes compôs e gravou " Você não me ensinou
a te esquecer" em 1979, na época em que seguia os passos românticos
do rei Roberto Carlos. É uma sofrida canção de amor, simples e
direta como os muitos sucessos populares que o cabeludo e cacheado -
até hoje fiel ao corte - compositor teve ao longo de três décadas de
carreira. Uma canção que se convencionou chamar de brega.
- Brega é o nome que o invejoso dá ao vitorioso -
replica Fernando Mendes, que diz não se incomodar com a definição.
Caetano, para quem superar tal preconceito com a música popular
sempre foi uma bandeira, quase uma razão de ser de sua carreira,
incomoda-se, sim.
- É uma boa definição essa do Fernando - provoca
Caetano. - Há no Brasil muitos preconceitos, por exemplo contra as
canções de harmonia simples. O rock quando surge parece algo
regressivo. Então não se percebe como ele trouxe sofisticação formal
em termos de contraponto, de timbres, de força de atitude.
Espírito já estava nas antigas composições de Caetano
Para Caetano, o mesmo raciocínio em relação ao rock
pode ser aplicado no que se chama de brega. Ou seja, há uma
simplificação do pensamento sobre música no Brasil. - Muita gente me
acusa de falta de critérios quando defendo esse ou aquele tipo de
música, de defender o vale-tudo. Mas o que eu busco é complexificar
os critérios críticos - afirma. - Era essa complexidade que eu
buscava em todas as vezes que provoquei o bom gosto dominantes de
Vicente Celestino ao "Tapinha".
Para Caetano, antes de expressar tal opinião gravando
os rejeitados pelos bem-pensantes da MPB, ele a incorporou em sua
própria obra. - é uma postura que já estava nas minhas composições
em 1966, em "Baby", "Divino", "Maravilhoso", "Superbacana", e depois
"Ta combinado", "A luz de Tieta" - afirma. - Não aceito, nem nunca
aceitei, essa divisão que quem impor à música brasileira entre a
canção popular e a música de boa qualidade da MPB.
Outro dia, na Praia de Ipanema, Caetano viveu uma
cena que ilustra bem a profundidade do preconceito que nota na
música brasileira: - Um garoto da Pavuna - lembro-me do bairro
porque era um bairro musical... - que gostava de música, falou-me
das conversas que tinha com os amigos, visivelmente fãs da boa MPB,
que o influenciavam muito. Até que ele me disse: "Olha, gosto muito
de suas canções, mas, me desculpe, algumas eu acho muito pobres,
como "Baby" (risos).
A gravação de "Você não me ensinou a te esquecer",
que sai no disco da trilha sonora de "Lisbela e o prisioneiro", pela
gravadora Natasha, é sofisticada e moderna: cordas e batidas
eletrônicas arranjadas pelo pernambucano André Moraes. - É uma
canção interessantes, sem refrão, numa estrutura pouco comum - diz
Caetano.
Mesmo fora da mídia, Fernando Mendes não para de dar
shows pelo Brasil. Acabou de grava um disco, a ser lançado em
setembro, em que sem querer apresenta uma canção, "Seria demais",
que de certa maneira adivinha sua situação atual: "Se eu
tivesse a beleza do Vinny, ou entção do Ronnie Von, seria bom; Se eu
tivesse o prestígio de Chico/Caetano, Gil e gal/Que legal". Por um
tempo, ele terá um pouco desse prestígio. E Caetano verá o apartheid
derrubado, ainda que simbolicamente.
No Estados Unidos música POP é música POP e inclui tudo e todos. No
Brasil aqueles que se consideram melhor do que os outros, classificam a música
feita no Brasil em MPB quando o produto vem do Nordeste, ou se é samba ou
bossa nova. Porém se a música é feita para o povo em geral os críticos
em geral chama o estilo de brega. Uma atitude provinciana e ultrapassada,
porque, um bom intelectual e crítico também deveria respeitar gostos,
estilos e artistas em geral. No meu ponto de vista MPB é toda música
feita no Brasil e escrita em língua portuguesa. Música popular é tudo
escrito e cantado pelo povo na língua oficial do país de origem.
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Não vejo mais
você faz tanto tempo
Que vontade
que eu sinto
De olhar em
seus olhos, ganhar seus abraços,
É verdade eu
não minto,
E nesse
desespero em que me vejo
Já cheguei a
tal ponto
De me trocar
diversas vezes por você
Só pra ver se
te encontro
Você bem que
podia perdoar
E só mais uma
vez me aceitar
Prometo agora
vou fazer por onde
Nunca mais
perdê-la
Agora, que
faço eu da vida sem você?
Você não me
ensinou a te esquecer
Você só me
ensinou a te querer
E te querendo
eu vou tentando te encontrar
Vou me
perdendo
Buscando em
outros braços seus abraços
Perdido no
vazio de outros passos
Do abismo em
que você se retirou e me atirou
E me deixou
aqui sozinho
Você não me ensinou a te esquecer,
de Fernando Mendes
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Os 'bregas' de Caetano
▪ VICENTE
CELESTINO: Em "Tropicália ou Panis et circensers", disco
- manifesto do tropicalismo, Caetano pega o que até então
era considerado o supra-sumo da cafonice nacional, o
operístico e folhetinesco Vicente Celestino, e grava
"Coração materno", a triste história de um camponês, sua
mulher e sua mãe.
▪ ROBERTO
CARLOS: Quando o rei era apenas um cantor de iê-iê-iê,
Maria Bethânia deu o toque a Caetano: Roberto era mais
interessante que a maior parte da MPB que tirava onda por
ali. Caetano acreditou e passou a vida a defender, gravar e
fazer canções para Roberto Carlos. Em "Muito romântico"
define: "Tudo que eu quero é um acorde perfeito, maior/Com
todo mundo podendo brilhar, num cântico".
▪ ODAIR JOSÉ:
Em 1973, num show no Maracânazinho, Caetano arranca apupos
da platéia ao dividir o palco com Odair José e seu hit
brega-político "Pare de tomar a pílula".
▪ PENINHA:
Ao gravar "Sonhos", no início dos anos 80, revelou as
canções românticas de Peninha ao público culto. Ao gravar
"Sozinho" no disco "Prendas minha", a canção popular de
Peninha puxou suas vendas para o patamar inédito de um
milhão de cópias.
▪ TAPINHA:
Novas vaias no palco ao se ouvir Caetano cantar o hit
sadomasoquista do funk carioca "tapinha", cujo refrão é
acoplado à chique "Dom de iludir", gravada em "Noites do
norte ao vivo". |

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